O episódio aconteceu em março de 2009, mas continuou perseguindo Vanusa por muito tempo. Durante uma apresentação do Hino Nacional na Assembleia Legislativa de São Paulo, em uma sessão especial pelo Dia da Mulher, a cantora se confundiu com a letra e acabou cantando trechos fora da melodia original. O vídeo, que mais tarde se espalhou pela internet, virou motivo de piada e marcou uma fase especialmente difícil de sua vida.
Anos depois, em um depoimento à Folha de S.Paulo, ela explicou o que aconteceu naquele dia e não escondeu o tamanho do descontrole que enfrentava. “Fui contratada para cantar o hino na Assembleia Legislativa de São Paulo dois dias antes, em uma sessão especial pelo Dia da Mulher, em março daquele ano. Passei a noite anterior toda decorando a letra e me automediquei”, contou à jornalista Giuliana de Toledo, em julho de 2014.
A cantora explicou que sofria de labirintite nervosa e que sentiu um mal-estar quando entrou para cantar. “Sofro de labirintite nervosa e, quando entrei para cantar, ‘estourou’ meu ouvido. Se eu fosse um pouco menos turrona, nem teria entrado”, recordou. “Com a crise, cantava duas ou três frases certas e já começava a divagar. O que eu fiz no hino ninguém consegue fazer. Encaixei as frases numa melodia que não existe, foi uma coisa louca”, continuou.
Naquele momento, ela não tinha dimensão do tamanho da repercussão que o episódio alcançaria. “Aconteceu isso, vim para casa e não tinha a menor ideia do que ia acontecer”, afirmou à Folha. Segundo seu relato, a gravação só foi parar na internet meses depois, em agosto de 2009.
A cantora contou que não acompanhou imediatamente a circulação do vídeo porque estava hospitalizada. Antes disso, havia caído e quebrado a clavícula. Sua psiquiatra percebeu as brincadeiras que estavam sendo feitas sobre a apresentação e pediu que ninguém a avisasse.
“Só depois da recuperação, o meu filho [Rafael Vanucci] me contou. Daí eu comecei a sacar que a coisa era bem mais feia do que imaginava”, relatou. Vanusa também revelou que demorou a conseguir assistir à gravação inteira: “Eu assisti poucas vezes ao vídeo e demorei muito para conseguir vê-lo inteiro”.
“De repente, eu, que tinha uma carreira de quase 50 anos, lisa, limpa, sem escândalos, com 23 discos lançados, virei a chacota do Brasil”, disse no mesmo depoimento.
Ela não escondeu o sofrimento provocado pela exposição. “Foi uma dor. Pensei em parar de cantar. Fiquei de uma maneira que não queria que ninguém me visse, não queria ver ninguém, não queria mais nem ouvir o meu nome”, contou.
E a situação ainda piorou. Pouco depois, Vanusa aceitou fazer um show em Belo Horizonte e teve outro lapso de memória, dessa vez durante a música “Sonhos de um Palhaço”, sucesso de sua parceria musical com o ex-marido Antônio Marcos. A apresentação também foi gravada e divulgada. “Foi outra merda”, resumiu.
No depoimento à Folha de S.Paulo, Vanusa relacionou aquele período à depressão e ao uso excessivo de medicamentos. Ao contar como decidiu procurar tratamento, revelou a frase que disse a um amigo antes de ser levada para uma clínica: “Ou me interno ou me m*to”. Meu Deus!
A internação aconteceu entre novembro de 2011 e maio de 2012. Segundo a cantora, foram seis meses e sete dias de tratamento. Ela participou das atividades da clínica e descreveu a rotina de medicamentos que enfrentava antes de pedir ajuda.
“Meu problema era assim: tomava muito remédio para dormir e muito antidepressivo para acordar. Tomava por dia quatro comprimidos de benzodiazepina de 2 mg cada um”, relatou. Vanusa também explicou que pequenas quantidades de bebida alcoólica potencializavam os efeitos dos medicamentos: “Se eu bebia um tantinho assim de uísque, já ficava louca, porque potencializava o efeito”.
A dependência também foi tema de uma entrevista concedida ao EGO em 2 de julho de 2012, pouco mais de um mês depois de deixar a clínica. Na conversa com a jornalista Adriana Nogueira, a cantora foi direta: “Estava à beira do suicídio. Tomava remédio para dormir, ansiolítico, remédio para labirintite... Sou compulsiva com remédio”.
“Passei a noite inteira tomando guaraná em pó para não dormir, decorando feito louca. Chegou uma hora em que não aguentava mais, eram 9h da manhã. Não aguentava mais de sono e tomei calmante para dormir, foi uma mistureba total...”, contou.
Em agosto de 2010, Vanusa voltou a falar sobre a apresentação em entrevista a Marília Gabriela, no programa "De Frente com Gabi". Na ocasião, ela rebateu as especulações de que estaria bêbada ao cantar o Hino Nacional e descreveu a sensação que teve durante a apresentação. “Comecei a ouvir um zumbido e não sabia mais onde eu estava. Foi o auge do meu estresse”, declarou.
“Atrapalhou muito a minha vida profissional e a minha carreira. Perdi oito shows que estavam marcados em um mês. Foi bem humilhante”, disse, emocionada. Sobre as notícias de que teria cantado embriagada, afirmou: “Fiquei espantada quando li: ‘Vanusa canta bêbada na câmara'”.
Na mesma conversa, explicou que fazia uso de guaraná e calmantes e que sua médica havia associado os sintomas à abstinência, depois que ela começou a reduzir os medicamentos por conta própria. “Sofri muito e fiquei traumatizada. Ainda não superei. Depois, quando vi na internet foi horrível. Não conseguia assistir”, declarou.
Apesar do sofrimento, Vanusa afirmou à Folha que, com o passar dos anos, passou a interpretar o episódio como um alerta para a necessidade de cuidar da própria saúde. “Por isso digo que o hino foi uma coisa ruim na época, mas hoje acho que foi uma coisa ótima. Deus estava me cutucando há tempo e eu não prestava atenção. Daí veio esse empurrão”, avaliou.
Ela também falou sobre as mudanças depois do tratamento e a redução dos medicamentos. “Hoje tomo muito pouco remédio. É uma luta diária”, contou.
Em 2014, quando deu o depoimento à Folha de S.Paulo, Vanusa se preparava para lançar o álbum “Vanusa Santos Flores”, produzido por Zeca Baleiro. O trabalho marcava seu retorno aos discos de músicas inéditas depois de quase duas décadas. A cantora ainda contou que gravar um comercial sobre o episódio, em 2012, havia ajudado a tirar a história de sua cabeça.
“Quando eu gravei o comercial da Visa [em outubro de 2012, sobre a Copa das Confederações], foi que tirei finalmente a história do hino da minha alma”, afirmou. O convite, segundo ela, veio por insistência do filho Rafael. “Faça para tirar essa porra de hino da sua cabeça, mãe”, teria dito ele.
Vanusa aceitou e, em seu relato, descreveu a gravação como uma forma de encerrar aquele capítulo. “Acho que o comercial foi um tapa de pelica. Exorcizei o caso para mim e também para os meus fãs que se sentiam magoados”, concluiu.